Ela era forte, havia resistido à morte de uma filha na mais tenra idade ...
Passou pela vida sendo sempre servida, não precisou muito trabalho ...
Seu marido era especial e a cobria de mimos, dengues e vontades realizadas ao mais caro preço...
Sua casa era SUA casa, filhos,netos, não tinham lugar por lá.
Morando só, sem aceitar a presença de NINGUÉM, continuava sua vida após a viuvez.
Passou a não mais poder se movimentar com destreza, a cada dia, enferrujava mais...
Um dia, crises psicóticas a deixaram no chão.
A partir dali, a casa foi liberada. Filhas, netos e ela, rodeada de enfermagem 24 horas, mas em SUA casa. Contudo, SUA casa não era mais SUA. Todos passaram a ter as chaves dela e ela,sem nenhum cantinho de privacidade por lá.
A cada visita, uma deterioração maior de seu estado era percebida por todos.
Ela,outrora lembrada por estar sempre bem perfumada, com seu batonzinho nos lábios, agora começara a perder sua dignidade.
Para as filhas, vê-la assim é um choque que faz questionar a tão propagada longevidade na atualidade.
De que serve chegar aos quase 90 se é para ficar com essa qualidade de vida?
Não sei se estou errada,porém creio que , pelo menos para mim, essa tal de longevidade deve durar enquanto houver dignidade de poder ir e vir, de ter minha higiene feita por mim, sem precisar me expor.
Que triste cena,verificar a decadência de um ente querido...
Mas,quem somos nós pra questionar...
ELE apagará a chave de sua luz aqui na Terra, quando achar que é a hora.
Cabe a nós aceitar e repensar as nossas vidas...
